Cavaleiro da Lua usa arqueologia e suspense para fazer a mistura da Marvel com o Egito

Mais do que ninguém, a Marvel sabe que precisa se reinventar para manter seu universo cinematográfico interessante. Para a Fase 4 do MCU, o estúdio voltou a apresentar heróis inéditos em produções que dividem espaço com continuações e derivados dos filmes que já deram certo. O primeiro deles a ganhar uma série de TV é o Cavaleiro da Lua, que chega ao Disney+ misturando aventura arqueológica e suspense psicológico para apresentar ao público do cinema um vigilante obscuro das HQs.

Em seus quase cinquenta anos de existência, o Cavaleiro da Lua sempre foi uma figura mutável. Desde sua estreia nos quadrinhos como um vilão até a consolidação como um dos grandes heróis noturnos da Marvel, foram anos de constantes mudanças em sua origem, poderes, aliados e inimigos. Com diferentes versões do personagem à disposição, a série resolveu tomar um caminho que é tanto fiel ao material base, quanto é original em busca de uma voz própria.

[A partir daqui, spoilers do primeiro episódio de Cavaleiro da Lua]

O capítulo de estreia apresenta Steven Grant (Oscar Isaac), um homem comum que trabalha como balconista na loja de presentes de um museu dedicado à cultura egípcia. Ele sofre de um distúrbio do sono que o leva a adotar uma desgastante rotina de medidas extremas para evitar um tipo de sonambulismo.

Acertadamente, o episódio inicial não tem pressa para apresentar Steven, levando o tempo necessário para mostrar cada faceta de seu protagonista. A paixão pelo Egito, a fragilidade que o leva a falar baixo e desviar o olhar quando conversa, a verborragia atrapalhada e, é claro, a solidão de quem precisa de uma estátua viva – cuja graça é ficar imóvel sob qualquer circunstância – para desabafar.

A conturbada vida de Steven se complica ainda mais quando ele acorda subitamente em um outro país sob a supervisão de um misterioso deus egípcio que parece reprová-lo. Antes que possa entender o que está acontecendo, ele precisa fugir de um grupo de mercenários que querem o totem de um besouro que ele nem mesmo sabe como conseguiu. Esquivando-se do grupo ele dá de cara com Arthur Harrow (Ethan Hawke), o grande vilão da história.

Após fazer uma breve aparição na introdução do capítulo – em que enche as sandálias que calça de cacos de vidro –, o antagonista surge no meio de uma praça cercado por seguidores para realizar julgamentos. Utilizando um cajado com poderes mágicos, ele analisa passado, presente e futuro de quem quiser passar pela audiência. Ainda que ele seja o instrumento, quem julga é Ammit, divindade egípcia que condena à morte instantânea quem cometeu ou vai cometer maldades.

Essa reunião com toda a cara de culto é interrompida quando o vilão descobre que seu besouro foi roubado por um “mercenário”, que acaba sendo Steven. Sem entender nada, o rapaz tenta devolver o objeto ao vilão, mas reações involuntárias de seu corpo o impedem. Essa é a deixa para que os capangas de Harrow o cerquem, mas antes de poder reagir, Steven apaga e acorda com os malfeitores sangrando a seus pés.

É claro que os vilões não deixariam barato e assim tem início uma cena de perseguição pelo que parece ser uma paisagem rural na Alemanha. Até esse ponto, o episódio vinha fazendo um bom trabalho no quesito ação graças à direção de Mohamed Diab, que transmite toda a urgência e confusão de seu protagonista com uma câmera na mão fortemente inspirada por documentários. O problema começa quando a fuga vira automobilística, ganhando uma proporção maior que o orçamento de televisão parece não atender.

Um dos primeiros contatos diretos entre Steven e sua outra personalidade acontece em meio a uma perseguição de carros com direito a pancadaria e tiroteios. Ainda que os dublês e a direção não deixem a desejar, o momento é marcado por um dos piores efeitos visuais do MCU, que falha ao esconder que tudo está sendo gravado com uma grande tela azul ao fundo.

E também não ajuda que um momento que deveria ser de perigo é embalado por uma trilha sonora alegre, fazendo com que o momento mais pareça uma esquete de programa de comédia. Ainda que tenha o claro objetivo de promover um contraste entre a leveza de Steven e a seriedade de sua outra personalidade, essa dificuldade em encontrar um tom torna esse momento destoante em relação ao resto.

A correria tem fim quando Steven subitamente acorda em seu apartamento sem vestígios de que saiu. Ele está amarrado à cama, o círculo de areia em volta dela está intacto e até a fita adesiva na porta não foi violada. Porém, essa tranquilidade dá lugar ao desespero quando ele começa a compreender que o “sonho” foi mesmo real e que, na verdade, sua outra personalidade tomou todos os cuidados possíveis para fazê-lo crer que não tinha saído de casa – em uma aventura que durou dias, o suficiente para furar em um date e deixar seu peixe morrer de fome.

Nesse ponto, é importante elogiar a escolha de Oscar Isaac para o papel. Em sua volta ao Universo Marvel após X-Men: Apocalipse (2016), o ator confere veracidade a um papel que poderia facilmente cair em uma caricatura. A performance como Steven ganha ainda mais força quando o personagem encara a insanidade, o que certamente será constante nessa história.

De volta ao apartamento, ele descobre um celular e a chave de um depósito. O aparelho está cheio de ligações de Duchamp – um aliado do Cavaleiro da Lua nas HQs – e Layla (May Calamawy). Para entender o que está acontecendo ele decide ligar para ela, que o chama de “Marc” e questiona por que não ligou antes.

A conversa não revela muita coisa, mas joga o rapaz de vez em uma espiral de desespero pela certeza de estar perdendo a sanidade. Todo o medo e angústia dele é traduzido visualmente por uma direção que toma um rumo de terror, usando as sombras para esconder ameaças no escuro. O fato de ter uma voz na cabeça do protagonista avisando-o para parar de procurar respostas certamente não ajuda.

O horror noturno dá lugar à chegada de um novo dia, em que Steven encara as primeiras consequências das ações de Marc. No museu, ele dá de cara com Arthur Harrow, que volta a repetir que quer o besouro que está em posse do rapaz. Herói e vilão travam seu primeiro embate no campo das ideias, com Harrow explicando que seu grande objetivo é servir a Ammit, deusa que não espera que pecados sejam cometidos para punir o pecador.

Conhecedor da mitologia egípcia antiga, Steven rebate chamando a deusa de “primeiro bicho papão” e indagando se não acaba sendo injusto punir um inocente antes de cometer um erro. Esse embate dura até o momento em que o vilão faz com que o rapaz passe pelo julgamento, cuja resposta não é revelada ao público, mas é surpreendente ao ponto de deixar Harrow boquiaberto. O vilão decide não fazer nada e deixa o museu, mas não sem deixar claro para Steven que o local está cheio de seus capangas.

Na calada da noite, Steven é atacado por um enviado de Harrow: um chacal egípcio. De volta ao terror, a série bebe de fontes que vão de Halloween (1978) a Alien – O Oitavo Passageiro (1979) para uma perseguição que aproveita as sombras para esconder uma ameaça sobrenatural capaz de matar um homem comum que não faz ideia do que está acontecendo.

Steven foge para um banheiro e é confrontado por Marc, que pede para que ele “entregue o corpo”. Em um belíssimo jogo de espelhos, a dupla discute até o ponto em que o rapaz aceita dar o controle para sua outra personalidade, que ao receber o controle se transforma no Cavaleiro da Lua, o vigilante com traje similar ao de uma múmia. A transformação é cortada por um pequeno salto temporal que mostra o banheiro destruído e o Cavaleiro derrotando o chacal com uma pancadaria violenta.

O primeiro episódio de Cavaleiro da Lua chega ao fim como a melhor estreia entre as séries da Marvel. Sem uma deixa em Vingadores: Ultimato (2019), a série faz a lição de casa e volta aos primórdios do MCU para apresentar e estabelecer para o público um grande herói dos quadrinhos. E melhor, o faz entendendo o formato de televisão, deixando ganchos de maneira orgânica em mistérios que instigam por si só e não pela possibilidade de dar pistas sobre os vários filmes e séries no futuro.

O ponto negativo da estreia está na aplicação da famosa “fórmula Marvel”. Ainda que o Cavaleiro da Lua seja uma figura atormentada pela presença de diferentes personalidades e um deus egípcio em sua cabeça, a série deu um jeito de torná-lo engraçadinho e desastrado. Contrariando o clima sério e sombrio estabelecido nos trailers, a série dilui esses dois aspectos do personagem que mais pedia por elas em seu universo cinematográfico. Por outro lado, trazer um Steven engraçadinho e docilmente atrapalhado pode servir como contraponto para um Marc que seja mais sóbrio e severo. Resta esperar para saber quais caminhos o herói vai trilhar nos próximos capítulos.

Cavaleiro da Lua ganha novos episódios no Disney+ às quartas-feiras.

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