Kirby and the Forgotten Land | Review

Desde seu primeiro jogo, Kirby’s Dream Land, lançado para Game Boy em 1992, a bolota cor-de-rosa não sabe muito bem onde se encaixar dentro da Nintendo. Criado pelo mesmo diretor de Super Smash Bros. Ultimate, Masahiro Sakurai, o personagem sempre foi marcado por jogos experimentais, em que ideias e mecânicas eram testadas – e poderiam existir apenas ali dentro. Kirby and the Forgotten Land não vai muito longe disso, mas dialoga mais com outros jogos e, comemorando o aniversário de 30 anos da série, se apresenta como uma porta de entrada para um dos personagens menos populares da Nintendo.

Tive duas experiências diferentes com o jogo. O primeiro contato foi através da demo, que está disponível na e-shop do Nintendo Switch, e não tive a melhor das impressões. As fases disponíveis na versão não mostravam bem o que o jogo tinha, de fato, a oferecer por pura falta de contexto e questão do recorte escolhido (a primeira fase e um chefe). A ideia era apresentar a nova mecânica, chamada Mouthfull Mode, e ambientar jogadores novos e antigos no que é o primeiro Kirby com navegação em 3D.

Já o jogo completo me passou um sentimento muito diferente: as mecânicas pareciam se encaixar melhor dentro de um contexto, e a ideia de liberdade de navegação transmitida pelos trailers logo é freada pela estrutura do jogo, que lembra muito a de Mario Odyssey e sua navegação entre os mundos que representam diferentes fases.

Uma boa apresentação

Imagem de Kirby and the Forgotten Land
Imagem de Kirby and the Forgotten Land

Kirby and the Forgotten Land cumpre muito bem o papel de ser uma introdução aos jogos da série, atualizando conceitos e os adaptando para a navegação tridimensional. Ao mesmo tempo, a HAL Technologies optou por dar uns passos atrás na evolução da série e limitar a variedade de mecânicas disponíveis no jogo. Kirby é capaz de absorver e usar uma quantidade muito maior de poderes do que os presentes no jogo, tornando o game mais acessível e atendendo ao público enorme que ele vai alcançar no Switch. Isso, porém, vai afastar quem procura desafios. Esse é um jogo intencionalmente fácil, seu nível de dificuldade cresce de maneira gradual, à medida em que você vai avançando nos mundos, destacando-se mais pela exploração permitida pelo Mouthfull Mode e os poderes que Kirby absorve dos inimigos. Cada nova fase se desenrola como uma espécie de puzzle ambiental, que você precisa desvendar para conquistar todos os objetivos, que é onde mora o verdadeiro desafio.

Ainda assim, não se engane: o jogo oferece pouco a quem quer se sentir desafiado, mesmo nos mundos mais avançados. Começa que, aqui, você não morre. Quando sua vida acaba, Kirby volta de algum ponto do cenário como se nada tivesse acontecido. A dificuldade aumenta em missões paralelas, que são percursos de corrida contra o tempo, e em cumprir todos os objetivos secretos de cada fase, o que exige que as completemos mais de uma vez. O jogo, porém, não se interessa em agradar quem quer se sentir desafiado o tempo todo. Mesmo nos momentos de maior ameaça, a atmosfera adorável te relaxa e traz uma sensação de conforto muito bem vinda e bastante rara nos jogos não-independentes atuais, o que vejo como uma variação muito bem vinda em uma indústria que está obcecada com cinismo e violência. Kirby é a brisa na tempestade e um jogo divertido para quem quer sorrir enquanto pula em plataformas e suga monstros diversos.

Imagem de Kirby and the Forgotten Land
Imagem de Kirby and the Forgotten Land

Em questões técnicas, Kirby and the Forgotten Land usa a falta de complexidade a seu favor para entregar uma das direções de arte mais bonitas e bem polidas do Switch. O jogo encanta e traz um gameplay fluído, com animações muito bonitas. É bem provável que nos primeiro minutos você se perca babando nos cenários das fases que misturam uma cidade destruída com a floresta que a consome do primeiro mundo. Kirby é belíssimo e te deixa ver o quão é bonito, não te preocupando com as consequências de ficar parado vendo as coisas se mexendo ou correndo pra chacoalhar a grama e as flores no chão. Gastei algum tempo entrando e saindo da água em quase todos os mapas onde isso era possível pelo simples prazer de ver a bolotinha rosa molhando e secando, causando pequenas ondinhas enquanto boiava.

Em busca do seu lugar

Ainda que seja difícil recomendar um jogo que considero mediano pelo valor praticado no Brasil, fica difícil não se encantar pelo carisma de Kirby and the Forgotten Land. Também não posso falar que vale a pena esperar por promoções, porque a Nintendo não costuma praticá-las em seus jogos. Mas, com uma trilha sonora deliciosa e uma sensação de conforto constante, Kirby vai te fazer sorrir enquanto o joga, embora não vá ser memorável de forma alguma. Não duvido que esse jogo venda bem, já que é o destino de todos os jogos lançados pela Nintendo no Switch, mas vai ser bem difícil ele não se tornar um daqueles jogos que só lembramos da existência quando vemos o nome passando por aí — pelo menos essas memórias serão agradáveis.

Imagem de Kirby and the Forgotten Land
Visual é um dos destaques em Kirby and the Forgotten Land

Da mesma forma que o próprio Kirby muda de aparência e habilidades quando engole itens e inimigos, o jogo não sabe muito bem como se colocar na prateleira. É uma plataforma 3D com foco em exploração que se inspirou muito em Mario Odyssey, inclusive no funcionamento do seu Mouthfull Mode que, até certo ponto, tem o mesmo papel do chapéu do encanador no jogo do Switch. A complexidade dos mapas é menor mas, ao mesmo tempo, a possibilidade de avançar neles usando os poderes adquiridos quando consumimos nossos inimigos faz o game ter sua própria personalidade e maneira de ler essa mecânica.

É bem possível que Kirby sofra por ser um jogo comum em uma época na qual os jogadores buscam diferenciais únicos ou produções impecáveis. Talvez essa seja a sina de todos os jogos da franquia: viver à sombra dos outros, enquanto agrada um público fiel e se torna alternativa para quem procura um jogo mediano, mas cheio de personalidade. Aqui temos uma história caótica, em que até os vilões são personagens adoráveis. É o típico jogo para esvaziar a cabeça e ajudar crianças e pessoas sem muita afinidade com videogames a entrarem no meio.

Kirby and the Forgotten Land nos lembra de que nem sempre precisamos de jogos impecáveis, às vezes só precisamos de um entretenimento confortável e divertidinho, que vai arrancar risadas com o botão cuja única função é acenar para os outros personagens. Algumas vezes, uma bobeira divertida e mediana é exatamente do que precisamos.

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